Os bons tempos da Fórmula 1: um passado que nunca existiu – Parte 3

Hoje virou moda dizer “antigamente a F1 era melhor”, será que era mesmo?

Demorou mais do que eu esparava, mas consegui realizar um estudo sobre os fatores que influem na competitividade e no espetáculo da Fórmula 1. Podemos apoiar o esporte em três pilares: o sistema, a cobertura e a audiência.

Sobre o SISTEMA, que é Fórmula 1 em si, com suas tecnologias, políticas e vaidades, o Capelli fez uma boa análise do caminho sem volta dos avanços que a categoria tomou, por causa da aversão ao risco. Precisa ficar claro que eles buscam sim o aumento de competitividade, mas por vezes esbarra-se no corporativismo. Mas a categoria evoluiu. A tecnologia trouxe mais competitividade e diminuiu a diferença entre as pontas do grid. Os pilotos viraram atletas. Os mecânicos-garagistas viraram empresários.

Sobre o eixo COBERTURA, como designei os meios de comunicação, eu vejo que há também um esforço, de quem transmite as corridas, de transformar os eventos em espetáculos, muitas vezes tirando leite de pedra. Eu já ouvi este ano a transmissão da rádio CBN e acho que faz uma ótima narração e conta com os comentários in loco de Livio Oricchio; a rádio Bandeirantes também transmite e, apesar de eu não ter ouvido nesta temporada, já li que anda tentando valorizar sua transmissão; e claro a Globo, que sempre tem seus locutores principais na transmissão, tentando passar emoção em qualquer imagem em movimento; sem contar o titular absoluto Reginaldo Leme, que dispensa elogios. A qualidade da transmissão ficou infinitamente melhor. E não falo só da qualidade de imagem, mas também qualidade dos cortes, do acompanhamento da corrida e da informação via caracteres – em 1981 a gente só sabia quem era o líder por que as câmeras o acompanhavam 75% do tempo total da corrida. Agora a corbertura feita via web está deixando a desejar, poucos sites tem conteúdo original relevante, os demais são tão playbackeiros quanto a maioria dos blogues…

Ah, essa AUDIÊNCIA que nunca está satisfeita… Eu já falei outro dia sobre as peculiaridades da torcida de F1 e a diferença com a turma do futebol, por exemplo. Acontece que essa audiência envelheceu. Vejo a molecada querendo assistir um Grande Prêmio na televisão por causa da curiosidade de ver  como é de verdade essa “coisa” que inspirou aquele jogo de Playstation. Nós crescemos vendo Piquet, Senna e Mansell correr, mas poucos cresceram vendo Schumacher… Nós é que envelhecemos vendo Schumacher. Essa é a verdade, uma incoveniente verdade.

Assistindo na íntegra esses GP históricos eu revivi junto certas emoções do passado, de quando a família toda se reunia aos domingos na casa da minha avó e eu e meus primos fazíamos no tapete o contorno de uma pista com baralho para brincarmos com os carrinhos; ou do meu primeiro carro, um Fusca vermelho ano 71 já bem zuadão, que virava minha Ferrari nas tardes de domingo; ou de ter dado um Autorama pra Guilhermão quando ele ainda era “inho”, bem “inho”…

Como podemos ver nas dezenas de reviews que tem para baixar na internet, apenas os melhores momentos resistem ao tempo. As corridas de Fórmula 1 eram muito mais duras de assistir na televisão do que são hoje. Na verdade, se eu disser que gostava mais de assistir o Emerson correndo antigamente do que o Alonso hoje pode ser que incoscientemente eu quero é ficar jogando videogame e não ter que ir na feira quando acabar a corrida; ou se falar que sinto saudades das corridas do Senna na verdade estaria sentindo saudades de brincar com meu filho numa manhã de domingo em vez de ligar pra casa da mãe dele pra saber se está tudo bem. Ou seja, os saudosismos são de outras coisas, a Fórmula 1 é a muleta. De muita gente.

Na fria comparação as corridas são melhores espetáculos de assistir do que antigamente, mas aos meus velhos olhos de trinta e muitos anos de idade não produzem mais tanta adrenalina quanto aquelas imagens toscas do passado faziam com meus hormônios juvenis. E nem pra maioria dessa horda de velhos-ranzinzas que têm agora tem o poder de gerar conteúdo, disseminar sua insatisfação através de blogues como este e uma infinidade de comunidades em redes sociais, como o Orkut por exemplo.

Eu me divirto assisitindo as corridas. Assista acompanhando o live timing da FIA e divirta-se também. Guarde a faca quando ouvir a voz do Galvão e você se diverti-rá também, ele sabe do que tá falando e “é do ofício” – o Reginaldo Leme e o Luciano Burti também. E pare de ler críticas negativas e fofocas, acredite, ainda esiste bons jornalistas que passam informações sobre o mundo da F1 que nos ajudam a formar uma opinião. Há pouco tempo eu assinava uns 43 feeds de blogues sobre Fórmula 1, agora leio 11. Infelizmente o repertório não é vasto, então muda o disco! Vá ler piadas, variedades ou até moda (mas não vá sair roubando vasos em cemitérios, hahaha).

Recomendo assistir corridas inteiras de outras épocas, mas com os olhos de hoje, e tire suas próprias conclusões, não assuma a verdade dos outros. As minhas melhores corridas de F1 são as “procissões” que assisto agora na minha TV de LCD, infinitamente melhores que os “shows” do Villeneuve-pai naquela Telefunken valvulada da casa da minha avó décadas atrás.

Wilson Fittipaldi, o Barão

O Barão (Wilson Fittipaldi pai) deu uma mensagem bem bacana no Esporte Espetacular do último domingo que eu usarei para encerrar este post:

“99% dos telespectadores não quer saber nada disso (sobre desculpas, justificativas e fofocas dos pilotos), quer saber é de ‘bola na rede’, de brasileiro vencendo corrida”

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7 Respostas

  1. Pois é. Eu sempre morro de rir quando alguém fala nos tempos aureos ou os bons tempos da F1… na verdade, eles eram exatamente como os de hj, só um pouco mais lentos e sem um bando de câmeras e coberturas da mídia que só não mostram a a alma dos pilotos porque, bem ainda não inventaram uma câmera capaz de fazê-lo.

    O que eu acho mais engraçado é o fato de que se a gente olhar o resultado das corridas daqueles ditos bons tempos ou qualquer outro vamos notar que hj em dia as equipes não estão tão desniveladas como d’antes. Me diga: como poderia haver tanta disputa como imaginam se os tempos de chegada numa prova eram tão grandes? Se muitas vezes o quinto ou mesmo o terceiro colocado era lapeado pelo vencedor? Como pode? Cadê a briga na pista bico a bico que espalham por aí? É claro que tinham tb ótimas corridas, como tem hj em dia, mas nem toda corrida era ótima e muitas vezes campeonatos eram decididos porque um carro quebrava mais do que o outro, não porque um piloto tinha sido superior ou um gênio do balacobaco.

    Mas sabe, pensando sobre o assunto cheguei a esta conclusão: como corridas, carros e afins são ditas coisas de homem, culparei vcs por essa, tá? Bom, homem quando olha pro passado e dá uma geral em coisas automobilísticas romanceia que é uma beleza, a ponto de acreditar em coisas que até existiram, mas não foram bem assim como lembram. O que me deixa fula da vida é que na hora que vcs de fato deveriam “romancear” as coisas, não o fazem, né? Damn!

    Aposto que daqui a vinte anos, lembrarão destas temporadas de agora como verdadeiras epopéias, apesar de não de terem passado de meras corridas. Boas, ruins, sensacionais, nem tanto, mas corridas. Como sempre foram e sempre serão.

  2. Ufa! Que bom que não estou sozinho nessa tarefa quixotesca…
    Sabe Diandra, tá difícil mesmo achar as grandes disputas que dizem existiram no passado, estou com meia dúzia de DVDs para pesquisar e postar durante a off season, será que sai muita coisa além das mesmas imagens ‘surradas’ do Villeneuve-pai ou Senna x Prost? Hehehe…

  3. […] Enfim, é um livro básico para quem é amante da velocidade, pois é a história dos “bons tempos da Fórmula 1” narrada por um dos seus principais […]

  4. Bom… faz algum tempo… mais vo comentar sim…

    Eu sou um dos poucos que Cresceu vendo Schumacher… tenho 18 anos…
    e ainda falo que TENHO SAUDADE DA ERA DO ALEMÃO!
    Mas dps de ler tudo ae encima… Abaixei a cabeça e simplismente concordei com tudoo! Na verdade a f1 não mudou sua base… ela naum mudou… o que aconteceu foi que o tempo passou, e não temos saudade!
    temos sim saudade de como era nossas vidas naquela época ( depede de cada um a época… a minha era 2004 ) No caso dele ele via o filho dele, e hj tem q ligar pra saber! No meu caso, em vez de ir estudar, eu ia jogar videogame e só me preocupava em comentar no outro dia na escola quem ganho ( no caso sempre era o Michael)!

    maior realidade…

    Os bons tempos da Fórmula 1: um passado que nunca existiu …

  5. […] só eu neste mundo estava se divertindo com as corridas e isso me motivou a escrever o post “Os Bons Tempos Da F1, Um Passado Que Nunca Existiu” e desde então só leio o Livio Oricchio e assino 2 ou 3 blogs do tema. Para realizar esta […]

  6. […] chegar no modelo atual ficaram pelo caminho muitos corpos dos bons tempos da Fórmula 1 (um passado que nunca existiu) e o primeiro gigante a tombar foi a Corrida dos Campeões, uma prova anual disputada pelas equipes […]

  7. […] o compacto a impressão foi outra, mas mesmo assim ainda não sendo um aficcionado sente saudades dos bons tempos da Fórmula 1 (um passado que nunca existiu). Que caça-paraquedistas, […]

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